Equipe em Dec 14, 2020
Com a Selic na mínima histórica, é hora de você mudar a forma como você olha a rentabilidade da renda fixa

Satisfeito com investimento que rende 100% do CDI? Hora de refletir!

Há não muito tempo atrás, ter um rendimento equivalente a 100% do CDI era atrativo. Um CDB que pagasse 120% do CDI se destacava. Mas esses tempos acabaram, e o investidor precisa “girar a chave”. A rentabilidade em percentual do CDI perdeu a sua relevância e está sendo substituída pela CDI+.

É uma nova referência de rentabilidade dos investimentos que começa a aparecer em gestoras como Quasar e Sparta, que vêm mudando as referências da rentabilidade de seus fundos para esse modelo. “Sempre vimos o percentual do CDI como mais uma jabuticabinha brasileira. Sabíamos que se os juros ficassem muito baixos poderia dar problema. Afinal, um percentual de 0 é igual a zero”, diz o gestor Ulisses Nehmi, da Sparta.

Mas Nehmi lembra que a compreensão pelo investidor nem sempre é automática. “Apesar de considerarmos como guidance o CDI+, continuamos a divulgar o percentual do CDI. Mas, desde o ano passado, tentamos educar o investidor para o CDI+”.

Marcia Lima, head de RI da Quasar, também aponta que a gestora está nesse processo para educar o investidor. “Os juros caíram de um nível de 14% ao ano em 2016 para 2% ao ano agora. Então além de reduzir taxas de administração nos nossos fundos de renda fixa mudamos, tanto na comunicação quanto nas metas de retorno, o percentual do CDI para CDI+. Os 110%, 120% do CDI deixou de ser interessante para o investidor e queríamos que os fundos continuassem competitivos. É um movimento que não deve ter volta e está alinhado com mercados desenvolvidos”.

É fácil entender a razão da mudança. Colocar recursos em um fundo que tem como objetivo bater o CDI não significa muita coisa em termos de rentabilidade, ao menos atualmente. Professor de finanças da FGV, Fábio Gallo simulou quanto renderia colocar 1.000 reais hoje em um CDB que paga o equivalente a 100% do CDI. Com taxa líquida de impostos, o rendimento depois de um ano seria negativo: o dinheiro a ser recebido seria de 999,24 reais.

Nem mesmo um CDB que rendesse 200% do CDI teria hoje um rendimento atrativo: o ganho seria equivalente a 14,97 reais por ano. “Alguém vai abrir mão da liquidez durante dois anos para ganhar 120% do CDI? É muito pouco. Talvez nem ganhe da inflação. A poupança era chacota. Hoje, a chacota é o 100% do CDI”, aponta Nehmi.

Veja abaixo a simulação feita pelo professor Fábio Gallo à EXAME.


Segundo Odilon Costa, analista de renda fixa da EXAME Research, o CDI+ é um indicador mais coerente do que o percentual do CDI. “Não faz sentido ter um prêmio de crédito que varie conforme a taxa de juros.” Costa explica que o percentual do CDI de certa forma mitigava o risco de mercado do título. “Não importa a Selic, está assegurado que terá retorno. Mas isso é bom quando as taxas de juros estão aumentando”, afirma. Não é o caso, segundo a visão de mercado.

A previsão que consta do Relatório Focus, do Banco Central, é que a Selic continue no patamar atual de 2% ao ano em dezembro; e que esteja em 3% ao fim de 2021.

No exterior, a rentabilidade medida pelo percentual do CDI não existe. “Nos países onde a taxa de juros foi sempre baixa, o ganho sempre foi de 1 a 3 pontos percentuais acima da referência. Não tem por que discutir indexação com taxa de 1% a 2% de inflação ao ano. No Brasil, é a primeira vez que começamos a falar sobre essas coisas. Entramos no clube dos juros reais negativos em março”, completa Odilon.

Mas o que afinal a rentabilidade CDI+ significa? É mais simples do que parece.

Nehmi, da Sparta, faz analogia com a diferença entre graus Celsius e Fahrenheit. “Imagina alguém acostumado a saber se está frio medindo a temperatura em graus Celsius. Se um gringo vem e diz a temperatura em Fahrenheit, ele nem sabe se está frio. Mas o fato é que ambos mostram a mesma coisa, de formas diferentes. É isso o que acontece com o percentual do CDI e o CDI+: 100% do CDI todo mundo vai oferecer. O CDI+ mede exatamente o quanto se ganha acima do custo de oportunidade.”

Os fundos de crédito da Sparta, por exemplo, têm como guidance entregar ao investidor um retorno de CDI+ 3% ao ano nos próximos meses. “Isso seria comparável a  250% do CDI, 350% do CDI, o que é hoje um bom retorno com risco controlado”, afirma o gestor.

É preciso dizer que o risco de um fundo de crédito privado é maior do que o de um CDB, que é garantido pelo Fundo Garantidor de Crédito (FGC). Gallo explica que, ao tomar a decisão de onde aplicar o dinheiro, o investidor precisa considerar três riscos: de mercado, liquidez e crédito.

É necessário comparar os valores sem as taxas, custos e tributos que incidem sobre a operação. Quanto maior o prazo, menor será a alíquota paga de imposto. “A recomendação é sempre investir acima de dois anos e avaliar riscos que são comparáveis”, afirma.

Então, um CDB que rende 100% do CDI passou a valer nada? William Eid, professor de finanças da FGV, pondera. “Não é que não vale nada. É o que temos para hoje e não há muito como fugir. Melhor do que deixar o dinheiro parado na conta. Vai render uns dois e pouco ao ano. Mas seu rendimento real, acima da inflação, será praticamente zero”.

Equipe em Dec 14, 2020
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